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Covid-19: profissionais da linha de frente travam batalha emocional

O médico Francisco Furtado Neto, 32 anos, afirma que a ansiedade aumenta nesse período de pandemia Foto: Natinho Rodrigues
Durante o trabalho em meio à pandemia do coronavírus, profissionais da saúde enfrentam uma carga ainda maior de estresse, além da sensação de fraqueza e exaustão emocional. A terapia online é um recurso recomendado
 

O exercício de profissões ligadas à saúde nunca foi isento de desafios. Para alguns, a pressão de cuidar e salvar vidas é uma constante, assim como o desgaste psicológico e a ansiedade. O período de epidemia do coronavírus traz consigo incertezas e mudanças bruscas de rotina, que põem em xeque a saúde mental destes profissionais.

“A primeira morte de paciente nunca saiu da minha cabeça”, conta Francisco Furtado Neto. A experiência no início da carreira como médico, há cinco anos, foi parte do aprendizado necessário para “adquirir resistência” no trabalho. Hoje, aos 32 anos, ele é diretor das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) dos bairros Bom Jardim, Vila Velha e Edson Queiroz. “Ninguém se acostuma com a morte, mas a gente vai aprendendo que isso faz parte do ciclo da vida. A gente tenta evitar que aconteça, ou pelo menos aliviar a dor desse momento, dar mais conforto ao paciente quando é inevitável”, diz.

Ele relata que, no atual contexto, a dificuldade em lidar com a perda une-se à preocupação em se contaminar com o novo vírus e o risco de transmiti-lo para outras pessoas.

O que causa mais medo, porém, é ver crescer o número de mortes por dia, como aconteceu em outros países.

 
“Temos muitos pacientes já entubados, outros ainda em suspeita. A profissão em si já causa um pouco de ansiedade, e nesse caso só aumenta”

Fora da unidade de saúde, pesa mais ainda a saudade dos familiares. Os parentes de Francisco Furtado Neto continuam em isolamento no município de Barbalha, sua cidade natal, e o contato agora é restrito às ligações e videochamadas. A falta dos sobrinhos, que ele via pelo menos uma vez por semana, agora é notável. O último encontro aconteceu há quase 25 dias.

Há dois meses, o médico iniciou sessões de terapia com uma psicóloga. O atendimento é feito pela internet semanalmente, por uma hora, e, segundo ele, vem ajudando bastante. “Ela reforçou que era muito importante fazer essas sessões nesse momento. Por mais que a nossa classe já esteja lidando com pressão desde a faculdade, agora é como uma situação de guerra sem armas. Essas questões ficam sempre martelando na nossa cabeça. E é impossível não pensar nas pessoas com menos condições sociais, que não podem fazer o isolamento social de maneira confortável. A gente tenta ajudar”, revela.

ESTRESSE CONSTANTE

Para Khalil Feitosa, 34, a situação de exceção é sinônimo de muito estresse. Ele atua como chefe do departamento de emergência do Hospital Geral de Fortaleza (HGF), e embora o atendimento de pacientes graves já fizesse parte da rotina, a epidemia se torna um agravante.

“Ganha uma comoção maior porque a gente fica nessa ansiedade de que algo pior está por vir. A gente vê notícias de outras partes do mundo em que os profissionais não conseguem prestar assistência adequada aos pacientes por falta de insumos. Isso gera uma ansiedade, aquela dúvida constante se vai chegar um momento em que a gente vai perder paciente por não ter estrutura adequada pra isso. Tem impactado bastante o nosso serviço”, lamenta Feitosa.

O médico já passou por terapia, e nota que cada vez mais colegas buscam o serviço, principalmente na especialidade de medicina de emergência. Hoje, ele utiliza recursos como meditação e atividades extras. “A gente precisa tentar abstrair em algum momento do nosso dia toda essa carga de energia da rotina de trabalho. Ficar mais próximo da família, assistir filme, ler. São válvulas de escape”, detalha.

Natural do Maranhão, Khalil mudou-se para Fortaleza durante o período de residência da faculdade, e permaneceu. Desde a segunda semana de março, quando viajou ao Estado pela última vez, a saudade da família só cresce. “Além de já trabalharmos habitualmente situações de estresse e tomada rápida de decisões, temos que aliar isso à preocupação em não nos contaminar e nem à nossa família. É muita coisa acontecendo simultaneamente. Mas a gente tenta buscar motivação no por que a gente escolheu essa profissão, sempre pensando em estar disponível para ajudar o próximo e para salvar uma vida”, declara.

BUSCAR AJUDA

Além da frequente ansiedade, as situações adversas da epidemia podem gerar sensação de fraqueza, despreparo e exaustão emocional, conforme explica a psicóloga clínica Noália Araújo, professora de Psicologia da Universidade de Fortaleza. A principal recomendação a esses profissionais da saúde, segundo ela, é buscar ajuda por atendimentos online.

“Acredito que podemos tentar contribuir para minimizar esses impactos psicológicos. Fazemos essa escuta ativa e mais qualificada para quem precisa”, diz. “Esse atendimento tanto pode ser individual, ou em grupos online, para quem preferir”.

Ela indica, ainda, a busca por atividades que possam servir como distrações em casa, durante o isolamento e fora do horário de trabalho. Yoga, exercícios, pintura e leitura são exemplos. “Além disso, buscar fontes precisas, como a própria Organização Mundial de Saúde (OMS), ao invés de consumir esse bombardeio de mensagens em grupos de WhatsApp, com informações muitas vezes falsas. É bom sair desses excessos. Procurar ler sobre assuntos diferentes do que se está acostumado”, destaca a psicóloga.

Noália AraújoNoália Araújo
A psicóloga Noália Araújo diz que é preciso buscar ajuda profissional online nesse momentoFoto: Arquivo pessoal

A circunstância da epidemia do coronavírus, de acordo com a psicóloga Anice Holanda, faz parte do âmbito de emergências e desastres, área da Psicologia que possui métodos específicos para atender pessoas que estão com sofrimento psíquico devido a uma situação externa, concreta e que afeta a todos. Ela trabalha no Hospital Infantil Albert Sabin (Hias), onde foi montado um plano de contingência para atender aos profissionais da saúde da unidade nesse período de pandemia.

“É algo diferente. A pessoa que está buscando esse serviço agora não está começando um processo de psicoterapia. Ela está sendo atendida naquele momento em que os aspectos emocionais se intensificam, e podem estar bloqueando suas habilidades profissionais. A importância de se acolher nesse momento contribui para a eficácia da melhora”, explica.

Para atender os profissionais nesse perfil, segundo ela, é utilizada uma área de conhecimento chamada psicoterapia breve focal, desenvolvida décadas atrás durante um período de pós-guerra. “Essa área tem a capacidade de organizar o olhar do psicólogo para uma certa hierarquia de sintomas, a fim de conseguir fazer um diagnóstico rápido dos pontos que mais bloqueiam o equilíbrio da pessoa, para ela estar na função onde precisa estar”, pontua.

O processo atenua a ansiedade, minimiza os sintomas e contribui para que o profissional da saúde possa reaver o equilíbrio e se manter na rotina. O atendimento também serve como medida preventiva para a saúde mental, evitando que o quadro psicológico piore.

“Existem profissionais da saúde que já tinham transtornos leves ou moderados antes da epidemia. Então é necessário um cuidado maior para que essas pessoas consigam manter os seus tratamentos em dia. A psicoterapia online, que foi regulamentada, permite isso. Se for tratamento psiquiátrico, é bom checar se o médico está fazendo teleatendimento”. Anice Holanda destaca ainda que o momento é de alerta para a importância de se cuidar, entender o valor de manter um tratamento que já vinha sendo feito, perceber que não está só e buscar suporte profissional.

 

Fonte: Diário do Nordeste

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